quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O “Menino de Ouro” e a irresponsabilidade jornalística

Por Jeferson de Sousa | Tela Plena




Ter ideias boas e ruins é algo normal na televisão. Luiz Bacci, no entanto, teve uma péssima ideia e resolveu levá-la ao ar. O nome dessa péssima ideia é "Tá na Tela" e pode ser vista de segunda a sexta, das 15h30 às 17h, na Band. O programa de Bacci é um prato cheíssimo, transbordante mesmo, para aqueles que acusam o jornalismo de ir de mal a pior.

Luiz Bacci, 30 anos, é dono de uma carreira impressionante: com 13 anos foi apresentador do "Domingo no Palco", o segmento infantil do programa "Domingo Milionário" da extinta TV Manchete. Em 2006 ingressou no SBT, onde foi repórter do "SBT Repórter" e "SBT Brasil" e apresentador do "Fantasia", "Aqui Agora" e "SBT Rio". Silvio Santos chegou a declarar que ele era o apresentador mais promissor da TV.

E tanto era verdade que, em 2010, a Record o arrancou da emissora de Silvio. No canal do bispo Macedo, Bacci se tornou um apresentador esporádico do "Balanço Geral RJ" e do "Cidade Alerta". Foi quando Marcelo Rezende o apelidou de "Menino de Ouro". Então Bacci virou apresentador do "Cidade Alerta RJ" e do "Balanço Geral SP". Depois de três meses no "Balanço" foi contratado pela Band ao peso milionário de uma rescisão calculada em R$5 milhões. Realmente um Menino de Ouro.

Pois bem, e nessa curta e vitoriosa trajetória, eis aqui nosso "golden boy" com um programa que nada tem de dourado ou precioso.

A, hum, "ideia" de "Tá na Tela" é unir o sensacionalismo já praticado em "Balanço Geral" com um programa de auditório cuja plateia é composta apenas por mulheres (provavelmente a plateia mais desanimada da TV brasileira; mas não podemos culpa-la).

Não entremos no mérito sobre o mundo-cão ali exibido - com destaque para uma operação mediúnica cujas imagens de péssimo gosto foram exibidas em detalhes. Nem vamos falar dos números de audiência: segundo a medição, o programa alcançou a vice-liderança do horário, com uma média de 4 pontos. "Tá na Tela" poderia ter alcançado 30, 40 pontos e isso não faria dele uma atração melhor. O grande, enorme, gigantesco problema do programa é outro: a ética jornalística.

Comecemos pelo mais leve e avancemos para o mais grave - se é que existe gradação em termos éticos.

Em sua estreia, Bacci vendeu como exclusiva uma reportagem sobre o paradeiro de Hilda Furacão, a lendária cortesã eternizada por Ana Paula Arósio na minissérie "Hilda Furacão". O "Menino de Ouro" alardeou tratar-se de matéria batalhada por sua equipe. Ocorre que, um dia antes, o "Fantástico" havia mostrado a mesma reportagem. Bacci chegou a insinuar que a revista dominical da Globo havia visto a chamada de seu programa e enviado uma equipe às pressas para fazer a mesma reportagem. Em momento algum, porém, mencionou o fato que a história de Hilda, atualmente vivendo em um asilo em Buenos Aires, havia sido publicada no jornal "Folha de S. Paulo" dois dias antes da estreia de seu programa.

E então o programa de Bacci percebe haver um link entre o triste paradeiro de Hilda e o de sua intérprete, Ana Paula Arósio. A isso resolveram chamar de "a maldição de Hilda Furacão". Segundo o raciocínio "jornalístico", Ana Paula estaria em profunda crise existencial e profissional. Por quê? Porque havia recusado R$ 1 milhão para protagonizar uma novela e se isolado em sua fazenda no interior de São Paulo. Ou seja, não se trata de uma apuração sobre a suposta crise, mas da dedução que só uma pessoa abalada prefere a privacidade em vez de embolsar R$ 1 milhão e viver sob os holofotes. Isso foi dito com todas as letras no programa.

Não satisfeita, a equipe de "Tá na Tela" foi até a fazenda de Ana Paula Arósio e, com uma câmera escondida, ludibriou o caseiro para poder entrar na propriedade. Depois disse que havia passado por "momentos de tensão e perigo" quando o caseiro, ao descobrir que havia sido enganado, partiu para cima da reportagem. Deve-se salientar que, antes disso, a repórter foi até a cidade vizinha à fazenda para perguntar se os moradores costumavam ver a atriz com frequência e se achavam normal alguém recusar R$ 1 milhão para fazer uma novela.

Agora vamos ao caso mais grave. Desde o primeiro momento da estreia, Bacci trombeteou que tinha em mãos um furo jornalístico que iria abalar o Brasil. O tal furo era uma entrevista exclusiva com "o principal suspeito" da morte de MC Daleste, um ídolo do funk ostentação assassinado a tiros em meio a um show em Paulínia, interior de São Paulo, em julho de 2013.

Logo de cara descobre-se que o tal "principal suspeito", o também funkeiro MC Bio G3, além de não ser principal, é tão suspeito quanto qualquer um com quem Daleste tinha relações. E quem disse que ele era o principal suspeito? Segundo a repórter do programa, "fontes de dentro da polícia". Ainda segundo a mesma repórter, trata-se de uma "investigação policial que segue em segredo". Bem, não parece.

Na entrevista com MC Bio G3 que o programa levou ao ar não havia nada de revelador, nenhuma evidência ou indício de que ele poderia ser o assassino. O funkeiro se defendia com tranquilidade dizendo que era suspeito como qualquer um. A reportagem no entanto dizia que, "segundo fontes", Daleste devia dinheiro para Bio. Uma dívida que o suspeito diz desconhecer.

Para piorar, o programa colocou diante da plateia o pai e o irmão de Daleste, que foram focalizados enquanto a entrevista com MC Bio G3 ia ao ar. Bacci alternava a exploração da comoção dos familiares com animados anúncios de produtos.

O apresentador deixou em suspenso o depoimento do pai e do irmão convidando-os para voltarem no dia seguinte, quando seria apresentada uma foto reveladora e bombástica. A tal foto havia sido passada pela mesma fonte interna da polícia, que, devemos lembrar, investiga o caso há mais de um ano. E também lembremos que a tal foto faz parte dos documentos da investigação que corre "em sigilo". Pai e irmão de Daleste não apareceram no dia seguinte.

O "Menino de Ouro" passou o programa todo prometendo chocar a plateia (que não esboçou reação alguma ao ver a imagem), o Brasil, o mundo. Com o objetivo de mostrar o quão chocante e reveladora era a tal fotografia, chamou-se uma perita para analisá-la.

E eis que a foto é mostrada no final do programa. Um suspeito apontando a arma? Uma pistola na cintura de alguém? Nada disso. Tratava-se da fotografia de uma geral da plateia e, lá no fundo, quase indefinível, um espectador usando a máscara de Guy Fawkes. Para quem não associou o nome à pessoa, trata-se da máscara que ganhou fama nos recentes protestos que tomaram conta das ruas no País.

Então a perita foi chamada para dar seu parecer. E você está esperando que ela diga se tratar ou não de uma montagem, que há algo que indique uma atitude suspeita, um volume que denuncie uma arma, certo? Reproduzo aqui o parecer "técnico" da perita: "Trata-se de um jovem entre 18 e 23 anos, que no ano passado usou e abusou dessa máscara. É a máscara do Anonymous".

A revelação imediatamente se transformou em piada nas redes sociais. Mas, para lá do nonsense e do ridículo, há um gigantesco desserviço em tudo isso. Além de, obviamente, colocar em risco a vida de MC Bio G3 - por mais que Bacci insista em dizer que ele é "apenas um suspeito", havia gente no Twitter tratando-o como culpado.

Quisesse fazer jornalismo de verdade a reportagem deveria ter dito que MC Daleste teve problemas com a polícia devido a algumas letras de seus funks (especialmente um intitulado "Apologia"). E deveria dizer que o próprio funkeiro já havia postado uma foto usando a máscara de Guy Fawkes, o que poderia induzir um fã a fazer o mesmo. Deveria dizer também que Daleste havia passado por uma batida policial pouco antes do show e que levou o tiro justamente no momento em que falava sobre o incidente. Não se trata de acusar policiais, mas são fatos relevantes quando você diz que foto e suspeito foram revelados por uma fonte de "dentro da polícia".

Um conselho para Luiz Bacci: limite-se a reproduzir reportagens sobre a bigamia de homens feios e covers do Zé Ramalho, como foi feito no segundo programa. Caso "Tá na Tela" insista em fazer jornalismo "sério", é provável que o apelido "Menino de Ouro" seja substituído por "Midas ao Contrário".

Fonte: Blog Tela Plena

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