sábado, 17 de novembro de 2012

Neste ônibus, ele é o último a descer


Quase todo o sal brasileiro sai do Rio Grande do Norte. As salinas de Mossoró, Macau, Areia Branca, Galinhos e Grossos, cidades do litoral oeste potiguar, respondem por 95% dos cerca de 5 milhões de toneladas anuais de sal produzidos no País. Mossoró é o ponto nevrálgico de uma rede produtiva que retira sua energia principalmente da natureza.

A cidade se orgulha de ser a mais rica em petróleo terrestre do País, cultivar melão às mancheias e ter expulsado Lampião à bala em 1927. Mas sua grande riqueza é mesmo o sal.

Três fatores básicos convergem para tornar aquela porção da costa brasileira o lugar perfeito para extrair sal marinho: o solo argiloso e plano impermeável à água, o vento constante e um sol que bate direto por nove meses do ano.

Ao se entrar em uma salina, pelo menos dois desses elementos ficam evidentes. De saída, o sol. A temperatura no litoral oeste do Rio Grande do Norte oscila entre 28ºC e 34ºC. Quando o branco das pilhas de sal reflete os impiedosos raios solares, esses números sobem a patamares insondáveis. O suor brota instantaneamente pelo corpo. O vento vem em socorro, soprando geralmente na direção nordeste, e segura a temperatura, que é amena para os locais.

A força natural é mais eficiente que qualquer isenção fiscal. Se fosse usado gás para evaporar a água que o sol evapora naturalmente na salina Unidos, a maior do Brasil, seriam gastos nada menos que R$ 11 milhões por dia. As contas são do engenheiro químico Enio Costa de Oliveira, superintendente da salina do grupo Salinor que tem o tamanho de 4.400 campos de futebol e fica em Macau, a uma hora e meia de carro de Mossoró.

Seus olhos brilham quando explica o sistema a um só tempo simples e complexo da salina. A água do mar é como um ônibus lotado, diz Enio. Ela entra cheia de gente (seres vivos e compostos químicos) e, de ponto em ponto, o pessoal vai descendo.

A água sai a toda hora, evaporada pelo sol. A primeira parada do ônibus são os evaporadores, onde descem os organismos vivos maiores, os carbonatos e o ferro. À medida que a água vai ficando mais concentrada (entre 12% e 25% de sal) os peixes todos já saíram. Nesse ponto, trabalha um microcrustáceo, a Artemia salina, que aguenta o alto teor de cloreto de sódio e se alimenta de algas minúsculas, limpando o terreno para o sal.

Parada do sulfato de cálcio. Este é o composto que, ao se precipitar e ser desidratado, vira o popular gesso. Quando a concentração na água chega enfim a entre 25% e 29%, temos o cloreto de sódio, que vai virar o sal de cozinha e, ao puxar a cordinha do ônibus, desce sob a forma de cristal. Seguem na lotação, diluídos na água que sobra, magnésio e potássio.

Essa viagem da água e do sal se completa em Areia Branca, onde cerca de 500 mil toneladas de sal bruto sobem todo ano em barcaças e navegam por duas horas até chegar ao porto-ilha, inaugurado em um banco de areia em alto mar em 1974. De lá, vão para o mundo. Quando da visita da reportagem, um navio estava sendo carregado de sal para seguir rumo a Camarões. Os 40 homens na ilha artificial passam até 26 dias isolados entre máquinas e pilhas de sal, mas rodeados por um mar incrivelmente azul-esverdeado.

Fonte: Estadão

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